O 7 a 1 não vai reformar o futebol
brasileiro
por José Antonio Lima
O Brasil amargou um quarto lugar na
Copa do Mundo após a derrota de 3 a 0 para a Holanda, no sábado, no Mané
Garrincha, mas a marca indelével da campanha continuará sendo a derrota de 7 a
1 para a Alemanha, na semifinal. Ainda que jogadores e comissão técnica sigam
em estado de negação, e falem sobre o “inexplicável”, a humilhação teve um
efeito catártico sobre torcedores e crítica. Há consenso de que precisamos
realizar uma reforma do futebol brasileiro. A chance de isso ocorrer,
entretanto, é ínfima.
Dentro do campo do Mineirão, parece
óbvio o que houve. O Brasil tomou um baile tático da Alemanha – explicado com
detalhes por Eduardo Cecconi no Impedimento. Mas o vexame foi tão grande que
suplantou a questão tática, e os 7 a 1 expuseram outras chagas do futebol
brasileiro. Em primeiro lugar, ficou claro que o Brasil tem graves problemas na
formação de técnicos – Felipão e Parreira parecem ultrapassados, assim como são
todos os seus colegas, o que explica a falta de um nome óbvio para
substituí-los. Em segundo lugar, há problemas na formação de jogadores – talvez
85% dos convocados seriam repetidos por muitos brasileiros, indicando a
precariedade do material humano.
Quase sempre foi assim, mas a falta
de organização foi superada ao longo do tempo pela grande quantidade de craques
brasileiros. Sem eles, sobrou o que o Fabio Chiorino chamou de “sebastianismo”,
o que o Douglas Ceconello, do Impedimento, chamou de “Complexo de Cachorro
Grande”, e o que eu chamei de “fórmulas mágicas”: é a crença de que somos
grandes e, na base da mística da amarelinha, vamos continuar ganhando do mesmo
jeito.
A revolução do futebol na Alemanha
A catarse produzida pelo Mineiraço
fez surgir como exemplo do caminho a seguir a revolução produzida no futebol
alemão desde o início dos anos 2000. A ótima matéria de Renato Ribeiro, levada
ao ar pela TV Globo em 8 de junho, exatamente um mês antes do massacre de Belo
Horizonte, e os comentários de Paul Breitner, feitos em entrevista à ESPN
Brasil em 2013, mostram em detalhes do que se trata.
Em resumo: ultrapassada por outros
países no futebol, a federação alemã passou a educar futuros jogadores e técnicos,
em um trabalho espalhado pelo país, que conta com 366 centros de treinamento,
campeonatos nacionais ao longo do ano para garotos dos 15 aos 21 anos, uma
filosofia única em todas as categorias de base e na seleção principal. Os
clubes são parte integral do projeto e atuam em parceria com a federação e
escolas para formar as crianças. O objetivo final é jogar bem e cuidar do
futebol, não ganhar títulos.
Brasil, Irreformável Futebol Clube
Diante da crise brasileira e do
exemplo alemão, é fácil chegar aos focos do problema do futebol nacional. Eles
estão em dois pontos: a Confederação Brasileira de Futebol e os clubes.
Se a CBF passasse a agir como a DFB
(a federação alemã) poderia produzir uma mudança de cima para baixo, obrigando
os clubes a seguir determinadas diretrizes. Se os clubes mudassem sua
filosofia, poderiam trazer novas exigências à mesa e exercer uma mudança de
baixo para cima.
Nada disso vai acontecer, e é fácil
entender os motivos.
A CBF
O colégio eleitoral que escolhe o
presidente da CBF tem apenas 47 votos, sendo 20 dos clubes da Série A e 27 das
federações. Só. Jogadores, técnicos, árbitros, clubes amadores e das Séries B,
C e D não têm direito a opinar. Na última eleição, em abril, Marco Polo Del
Nero foi eleito com 44 votos, uma quase unanimidade explicada pelo fato de que
tanto clubes quanto federações são obrigados a ser situacionistas diante do
domínio exercido pelo complexo CBF-Globo no futebol brasileiro.
O esquema é fácil de entender. Por um
lado, a CBF obtém os votos das federações ao conservar um calendário que
permite aos dirigentes dessas entidades manter intacto seu poder paroquial
dentro dos estados. Ajuda nesta missão a mesada repassada pela confederação. O
nefasto resultado disso é um fortalecimento dos campeonatos estaduais que, como
mostram os números, está matando o futebol brasileiro.
Os clubes da Série A, por sua vez,
votam na situação no pleito da CBF pois são reféns da TV Globo. Após décadas de
gestões catastróficas, os clubes acumulam enormes dívidas e, para sobreviver,
dependem em grande parte do dinheiro das cotas de televisão. Seja com os
pagamentos regulares ou com adiantamentos, como o recebido pelo São Paulo
recentemente, a Globo mantém os clubes sob seu controle. Em troca, a emissora
preserva os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro e seus privilégios
com a seleção brasileira.
Nos preparativos para a Copa do
Mundo, a atuação conjunta da Globo e da CBF ficou clara. Diante da
possibilidade de o Clube dos 13 vender os direitos do Brasileirão para outras
emissoras, a entidade que congregava os maiores clubes do país foi implodida.
Alguns clubes se venderam pelo reconhecimento de títulos antigos, enquanto o
Corinthians ganhou de presente o Itaquerão, substituto do Morumbi na Copa do
Mundo. Não por coincidência, o São Paulo, dono do Morumbi, era um dos líderes
da tentativa de vender os direitos do Campeonato Brasileiro para outras
emissoras. A Globo também foi obrigada a colocar a mão no bolso: aumentou as
cotas dos clubes e teve um “prejuízo” calculado em R$ 2 bilhões por ela
própria.
Parece claro, então, que da CBF não
partirá qualquer tipo de ato capaz de melhorar o futebol brasileiro. Seus
dirigentes não estão lá para fazer do futebol um produto melhor, capaz de se
inserir na sociedade com qualidade, como ocorre na Alemanha, mas para manter o
status quo que beneficia exclusivamente uma emissora de tevê e os presidentes
de federações. Nem mesmo uma intervenção estatal pode mudar o futebol, como
expliquei neste texto.
Os clubes
A situação não é muito melhor entre
os clubes. É verdade que muitos são reféns do complexo CBF-Globo, mas eles
pouco fazem para mudar a situação atual.
Em geral, os clubes funcionam de
forma parecida com a CBF. O interesse é no poder imediato do dirigente da vez,
não em tornar o clube mais forte a longo prazo. O sinal mais óbvio disso é o
tratamento dado aos torcedores comuns. Em vez de cultuar o sujeito que vai
consumir seus produtos e perpetuar a paixão pelo clube, o dirigente brasileiro
o pretere em detrimento dos torcedores organizados, em grande parte criminosos
usados politicamente nas eleições dos clubes.
Não é surpresa, assim, que as
categorias de base, de onde deveriam sair os atletas que um dia brilharão na
seleção brasileira, tenham tratamento sofrível. Em vez de formar cidadãos e
atletas, os clubes fazem, ou aceitam que se faça, de seus centros de
treinamento um viveiro de revelações a serem vendidas o mais rápido possível
para dirigentes e empresários realizarem rapidamente seus lucros. Não há preocupação
em ensinar os preceitos técnicos, táticos, físicos e mentais do futebol.
O exemplo claro disso vem do Santos,
que tem a categoria de base mais elogiada do futebol brasileiro hoje em dia.
“Quando estive na base, aprendi os fundamentos do futebol, mas acabei fazendo
coisas que eu não fazia no treino, ou aprendia de maneira errada, em casa.
Aprendi com um cara que, vocês não conhecem como treinador, mas que foi um dos
mais importantes da minha vida, até melhor que muitos treinadores. Aprendi mais
com ele em casa do que com qualquer treinador. A gente acaba aprendendo de
forma errada. Eu via meus companheiros fazendo de forma errada.” As frases são
de Neymar, e assustam. Afinal, se o melhor jogador do futebol brasileiro na
atualidade não aprendeu seus fundamentos nas categorias de base, o que espera
os outros?
Há quem defenda, como Fernando
Rodrigues, na Folha, que para mudar os clubes é necessário executar as dívidas
e levá-los à falência. Essa solução, de cunho neoliberal, acabará por matar os
clubes e, com eles, o futebol. A solução seria, então, um saneamento. O
Flamengo agora faz campanha pela Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que
tramita no Congresso. Combinada com a ameaça de punições para quem
descumpri-la, a lei poderia provocar mudanças no esporte, mas é improvável que
isso gere grandes repercussões na forma como os clubes são administrados. Cada
um deles funciona como uma pequena ditadura, ou uma “democracia controlada”, em
que só votam conselheiros. Sem democratização genuína e participação dos
torcedores, nada vai mudar. E não há perspectiva para os clubes se
democratizarem.
O jornalismo e os torcedores
Mais dois fatores, que se entrelaçam,
explicam a impossibilidade de reformar o futebol brasileiro: o jornalismo
esportivo e a expectativa do torcedor.
No caso do complexo CBF-Globo, o
assunto é um verdadeiro tabu, graças ao domínio que as Organizações Globo
exercem sobre o jornalismo esportivo brasileiro. Por óbvio, quem trabalha em
veículos ligados à emissora não pode tratar deste assunto. Quem atua em outras
empresas jornalísticas também se sente intimidado, uma vez que criticar um dos
produtos mais rentáveis da emissora é fechar as portas para futuros trabalhos
em qualquer veículo ligado à empresa. Noticiar os detalhes desta quase simbiose
entre a confederação e a emissora, assim, se torna uma aventura.
No caso dos clubes, o problema também
é grave. Quase não há cobertura a respeito da política esportiva, seja ela
interna das agremiações ou das relações mantidas entre elas. Os torcedores,
assim, ficam mal informados a respeito de como os dirigentes chegam a seus
cargos e das (poucas) possibilidades que têm para participar e exigir
transparência e democratização dos clubes.
Este problema, no entanto, é um caso
semelhante à clássica dúvida a respeito da origem do ovo e da galinha: os
torcedores não ficam sabendo porque os jornalistas não noticiam? Ou os
jornalistas não noticiam porque os torcedores não querem saber?
Isso leva a uma reflexão sobre o foco
do jornalismo esportivo nacional, iniciada na ESPN Brasil por Paulo Calçade. O
jornalista aponta a pobreza intelectual que vigora no ambiente futebolístico
brasileiro e lembra que ela chegou ao jornalismo, em parte por meio de alguns
ex-jogadores alçados a comentaristas (mas também por jornalistas, acrescento
eu), que rejeitam o conhecimento e perpetuam as “fórmulas mágicas” e
“sebastianismos” citados no início deste texto. Durante a Copa, essa situação
teve uma leve piora, com a entrada na cobertura de atrizes e jornalistas de outras
áreas que pouco ou nada têm a contribuir para o debate.
Esse tipo de comentário não se
popularizou à toa, no entanto. Ele dá audiência, seja em forma de cliques,
vendas em banca ou pontos no Ibope, muito mais do que reflexões sobre como o
futebol deve ser gerido ou sobre as eleições internas de um clube ou da CBF.
Assim, parte do jornalismo esportivo parece sofrer de uma obsolescência tão
intensa quanto a dos cartolas e treinadores brasileiros. Ocorre que muito disso
se deve também às preferências do público.
Há que se considerar, também, que o
comportamento dos dirigentes reflete diversos traços da sociedade. Como bem
disse o amigo Thomas Visani, a incapacidade de se pensar no bem coletivo é um
problema endêmico brasileiro. Da mesma forma, é a incapacidade de aprender com
os outros, quanto mais copiar a altamente complexa revolução alemã do futebol.
Por fim, o imediatismo dos cartolas reflete a cultura nacional na qual fica
claro, como afirmou o Rodrigo Borges há cinco anos, que o brasileiro não gosta
de esporte, mas de vencedores.
Um país é o que as pessoas fazem
dele. O futebol, também. A humilhação diante da Alemanha escancarou o atraso
tático e a deficiência técnica do futebol brasileiro. Elas são geradas por um
sistema podre, protegido pelo status quo da CBF, das federações e dos clubes.
Talvez, como afirmou o Victor Martins no Grande Prêmio, aqueles 90 minutos
tenham sido uma metáfora da sociedade brasileira. Agora, seria necessário que
os jornalistas, e a sociedade, estivessem prontos para discutir isso, exigir
mudanças no futebol e privilegiar este debate “chato” em detrimento do
noticiário sobre os resultados dos clubes e da seleção. Não há sinal de que
isso vai ocorrer. No Mineirão, a humilhação só começou.


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