Publicado originalmente no Passapalavra
Sempre oscilei entre o nacionalismo anti-imperialista e a luta de classes e, ao mesmo tempo, não deixei de ter amizades e vínculos com aqueles que davam prioridade à luta de classes frente à luta nacional.
Por Pablo González Casanova entrevistado por Claudio Albertani
Claudio Albertani (CA): Como avalia a influência de seu pai, destacado linguista e filólogo, na sua formação teórica?
CA: Em seus textos autobiográficos e em algumas entrevistas, salienta que não teve uma vocação precoce pelo estudo, sendo que, em um momento seu pai pensou em te encaminhar ao trabalho manual. Por outro lado, conheço a sua sólida formação clássica, especialmente no ramo da poesia. Quando e como surgiu esta paixão que ainda cultiva?
PGC: Meu pai nos lia poesia e nos ensinou a memorizar certos poemas. Isto me deu gosto. Estudo os problemas da atualidade, mas à noite sempre leio poesias ou teatro. Neste momento, estou lendo Prometeu de novo, e descobrindo o que não descobri quando estava no colégio. E que Prometeu não somente havia presenteado o homem com o fogo, e sim que, como ele disse, também lhe deu a indústria, ou seja, a tecnologia e as ciências. E acrescenta Prometeu, “Dei-lhe a esperança”. Estes elementos, somados a outros que asseguram que a tirania de Zeus irá cair, por mais poderoso que Deus seja, fazem parte de meu amor pela poesia. A poesia expressa verdades que a filosofia e a sociologia não acessam.
CA: Que papel desempenhou Lombardo Toledano em sua formação? Qual foi sua relação com ele?
PGC: Minha primeira esposa era filha da irmã de Lombardo, e quando fomos a Paris ele nos visitou de passagem para Moscou ou Roma. Foi ele quem me presenteou com a primeira edição das obras de Gramsci, em italiano, que tenho até hoje. Era um homem brilhante. Uma de suas contribuições foi dar ao nacionalismo revolucionário mexicano uma política exterior universal, impulsionando as relações com a União Soviética e o apoio aos movimentos de libertação na América Latina. Foi uma nova expressão do nacionalismo, que refletiu nos vínculos com os movimentos operários, com a luta de classe e com a emancipação socialista. Mas a frustração chegou cedo, pois tanto a Revolução Mexicana se tornou populista quanto a Revolução Russa se tornou cada vez mais burocrática e, até mesmo, capitalista.
CA: O que pensa do nacionalismo revolucionário?
CA: Qual foi seu primeiro encontro com o marxismo?
CA: Que fatores determinaram o deslocamento de sua atenção da história para a sociologia?
PGC: Não estudei o que tradicionalmente se entende por história. Os professores espanhóis que projetaram o mestrado nas Ciências Históricas deram à história um caráter científico que implicava no estudo da sociologia, da ciência política e da economia. Inclusive nos conduziam no campo político ao estudo da história das instituições e, neste sentido, também à história do direito público e privado. Logo comecei a trabalhar sociologia do conhecimento, já me interessando por outro tipo de problema, que me levou, por exemplo, a escrever A democracia no México. Mas, na realidade, todo o tempo regresso aos problemas do conhecimento.
CA: Ao longo de seu trabalho a democracia ocupa um lugar central. Contudo, você me parece hesitante em defini-la. Não encontro em seus trabalhos uma definição precisa a este respeito…
PGC: Se você utiliza o termo em seu significado original, não precisa fazer nenhuma definição: é o poder do povo. Como organizar o poder do povo é outra coisa. Nisto se encontram problemas que ainda estamos explorando e que agora podemos resolver melhor do que nunca. Se considerarmos, por exemplo, o problema da vontade geral de que Rousseau falava, temos hoje possibilidades de encontrar uma solução que no seu tempo era impossível. É que a capacidade dada pela tecnologia de informação e da organização para exercer a democracia direta, para exercer uma democracia participativa, nos permite expressar a vontade geral não apenas como a soma dos votos dos cidadãos, mas como uma combinação das vontades particulares que se articulam numa vontade geral. A vontade geral não é a soma das partes, mas sim uma combinação das mesmas. Acabamos de ver isto na Islândia, num ato de que pouco se fala, mas que é notável. 92,5% dos cidadãos exigiram através da internet que se cancelasse a dívida externa, se reformasse a Constituição e que se faça um novo governo. Este grande movimento não acaba com o capitalismo, mas coloca um ponto final no modelo predatório deste sistema, que é o neoliberalismo.
CA: Em A democracia no México você introduz a categoria de colonialismo interno para analisar a realidade nacional. Quase meio século depois, como avalia a situação?
PGC: Para mim, não pode existir socialismo sem democracia, e em um país como o México não pode existir democracia com colonialismo interno. Mas no México há colonialismo interno. Com grande hipocrisia dizemos que somos todos descendentes de índios. Temos o Cuauhtémoc no Passeio da Reforma, enquanto os peruanos têm Pizarro. Isto me dá muito prazer. Espero que continue Cuauhtémoc e não coloquem Cortés. Mas o fato é que este Cuauhtémoc não é suficiente para evitar a farsa. Na realidade, continuamos racistas e colonialistas. No México, se você tem olhos azuis e cabelos loiros te tratam de uma maneira, e de outra se você for um homem ou mulher – pior se for mulher – com traços puramente indígenas. Isto no que se refere ao tratamento geral. Na verdade, há uma super-exploração da população indígena e uma depredação dos bens e territórios dos povos indígenas que vai além da natureza e prática de expropriação que ocorre em populações mestiças e crioulas.
CA: Mas recentemente você tem falado de colonialismo global…
CA: Os acontecimentos das últimas décadas parecem confirmar seu diagnóstico.
CA: Há mais de 40 anos você escreveu que a essência do marxismo não reside no materialismo, nem na dialética e no socialismo, mas sim na teoria da exploração.
PGC: É isso. Marx deu à relação de exploração uma importância central, a partir daí tentou construir uma investigação científica e filosófica de um rigor extraordinário, que está sujeita não só aos experimentos de laboratório ou observações do astrônomo, mas a lutas muito intensas que envolvem o pensamento reflexivo e intuitivo, a vontade e coragem. Para certos cientistas, que reduzem a ciência aos estudos em bibliotecas e laboratórios, fica difícil entender que o marxismo abarca formas de conhecimento que incluam não só a biblioteca e o laboratório, mas também algo novo que é a criação. E a criação não é unicamente uma questão de experimentos, mas sim de práticas, de teorias, de como fazer um mundo melhor, um mundo menos opressivo, um mundo onde reine a liberdade. Nas palavras de Engels: “A única coisa que Marx e eu fizemos foi estudar como o homem podia ser livre”.
CA: Atualmente, alguns autores acreditam que a exploração do trabalho intelectual se torna o motor do tipo de capitalismo em que vivemos, e por isso substitui a questão da criação de mais-valia, colocando o fim da exploração. Que opinião tem a este respeito?
PGC: A chave da exploração continua sendo os Miseráveis da Terra. Uma das questões que são mais inaceitáveis é assumir que o problema principal da humanidade é que alguns homens exploram outros. É evidente que uma parte da mais-valia é devida à mais-valia relativa, e isto tem a ver com o conhecimento. Sempre foi assim. Mas nossa capacidade de explorar de forma direta as crianças, as mulheres e os imigrantes tem aumentado como nunca. Ao denunciar isto, pode ser mandado para o paredão ou para a prisão… Depois de Marx, muitos – Weber, por exemplo – tentaram demonstrar que o capitalismo era produto de pessoas honestas que haviam economizado para a velhice… Ocorre o mesmo agora. Na realidade, nunca existiu tanta exploração…
CA: Seu trabalho integra o marxismo com a sociologia empírica e a matemática.
CA: O que entendo é que você emprega diferentes técnicas de investigação. Alguns te apelidam de eclético.
PGC: Penso que tudo começou com o historicismo de meus professores do Colégio do México. Eles procuravam buscar totalidades que explicavam os fenômenos históricos, ainda que não incluíssem as relações de exploração. O certo é que um dos problemas que estudei desde meu mestrado é precisamente o ecletismo. Mas o ecletismo é uma forma superficial de acesso ao conhecimento. Uma parte da verdade encontro aqui, outra ali. Então junto as duas verdades parciais e tenho uma verdade completa. Isto é de uma superficialidade espantosa. O que eu via é que a academia estabelecia fronteiras entre uma especialidade e outra. E as correntes teóricas ou ideológicas tinham feito algo semelhante. E diziam: “Até aqui é empirista, aqui deixa de ser; até aqui é marxista, aqui já não”. Para alguns, o falso residia na separação, enquanto que, para outros, o falso era a união tachada de eclética. Em minha opinião, o falso reside na separação artificial do que na realidade está unido, e, também, em toda união artificial do que está separado.

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