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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mombojó S/A Ltda. + Del Rey free-commerce= música hoje em dia...

Os dois lados da mesma moeda
Integrantes do grupo pernambucano Mombojó também formam a banda Del Rey, com propostas totalmente distintas. A experiência mostra uma parte da realidade do mercado fonográfico brasileiro.
Por Pedro Alexandre Sanches
[30 de julho de 2010 - 18h37]
Era uma vez uma banda que ganhava a vida nos palcos, fazendo covers simples, diretos e baratos de Roberto Carlos. Era uma vez outra banda que sobrevivia a duras penas entre os escombros da velha indústria fonográfica, cantando material próprio, inédito e experimental. As duas bandas eram diametralmente opostas, exceto por um detalhe: ambas eram formadas pelos mesmos integrantes.

A história é real e diz respeito ao grupo pernambucano Mombojó, em atividade desde 2001. Em 2004, por brincadeira, os rapazes começaram a fazer shows baseados apenas em repertório de Roberto, a partir de uma ideia do roqueiro conterrâneo China (que aparecera em 1999 com o grupo de rock pesado Sheik Tosado e estreava solo naquele mesmo 2004, com o disco Um Só). Ele assumiu o papel de vocalista, e a nova banda foi batizada de Del Rey.

Espontaneamente, o projeto paralelo foi ganhando corpo e passou a coexistir com os trabalhos originais dos artistas, às vezes até a chamar mais atenção que eles. Trouxe também benefícios inesperados para seus inventores. O Mombojó, que havia gravado discos com auxílio de leis de incentivo (Nadadenovo, de 2004) e da gravadora Trama (Homem Espuma, de 2006), lançou em junho deste ano Amigo do Tempo, seu primeiro álbum 100% independente, custeado exclusivamente com recursos do próprio bolso – e, em grande medida, dos shows sempre concorridos do Del Rey.

Esse caso pode parecer banal, mas guarda alguns dos segredos sobre significados e implicações de fazer música brasileira em 2010, quando a indústria fonográfica assiste estatelada ao apogeu do (auto) extermínio de gravadoras (locais ou multinacionais, tanto faz), CDs, bandas comerciais formatadas para o mercado radiofônico e televisivo, contratos milionários e prima-donnas pop-rock-MPB mais interessadas em glamour do que em música.

É corrente e inúmeras vezes repetida a história de que, nos anos 1970, as gravadoras conservavam elencos de estrelas como Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia mais para acumular prestígio, enquanto o lucro (e os privilégios dos nomes mais festejados) era garantido pelo trabalho árduo e pela venda maciça de artistas então rotulados de “cafonas”, como Odair José, Benito di Paula, Agnaldo Timóteo, Lindomar Castilho, Núbia Lafayette, Waldick Soriano e, claro, Roberto Carlos.

Hoje, o núcleo Mombojó-China-Del Rey encarna uma versão mais modesta desse conto de fadas um tanto cruel, mas leva a carruagem da história um passo adiante: ganhando dinheiro de um lado para gastar do outro e construindo uma identidade própria sob o exercício pop de fazer a multidão cantar os hinos de Roberto Carlos, os seis rapazes nascidos na terra de Luiz Gonzaga e de Reginaldo Rossi conseguem a façanha de unificar o “Pai, afasta de mim esse cálice” de Chico Buarque e o “eu não sou cachorro, não” de Waldick Soriano. Agindo como se fossem ao mesmo tempo patrões e empregados deles próprios, emolduram um retrato em três por quatro de quão original e surpreendente pode ser o mundo da música na era pós-indústria fonográfica.
Banda de baile e contemplação

China, Chiquinho (teclados e samplers), Felipe S. (vocais e guitarra), Marcelo Machado (guitarra), Samuel (baixo) e Vicente Machado (bateria) despertaram para a música no rescaldo da geração manguebit, que se impôs nos anos 90 propondo uma desafiadora mistura entre as tradições pernambucanas, por um lado, e rock, rap, reggae, samba e pop, por outro. Não apenas pela recombinação de gêneros musicais, o manguebit cumpriu trajetória do tipo tropicalista – angariou respeito, prestígio e controvérsia, mas nunca chegou a subir ao pódio das paradas de sucessos e vendagens de discos.

Mais interessado no rock e no jazz que em misturas demais, o Mombojó nunca foi propriamente manguebit, mas assimilou muito do estilo faça-você-mesmo desenvolvido na década anterior pelas bandas de Chico Science (Nação Zumbi) e Fred Zero Quatro (Mundo Livre S/A). A própria experiência do Del Rey parece em parte inspirada na aventura de Los Sebosos Postizos, banda de covers de Jorge Ben Jor formada por integrantes da Nação Zumbi, anos após a morte do líder Chico Science (que, por sinal, gravara em 1994 uma cover manguebit de “Todos Estão Surdos”, de Roberto e Erasmo Carlos). De natureza parecida, o disco Academia da Berlinda surgiu em 2007 a partir de outra “brincadeira” de palco, na qual integrantes dos grupos Mundo Livre S/A, Eddie, Nação Zumbi e Orquestra Contemporânea de Olinda se reuniam para interpretar pops de sabor latino e/ou “cafona”.

Nenhum desses projetos, no entanto, teve o alcance do Del Rey, que mantém rotina forte de shows em locais tão distintos quanto o templo “indie” paulistano Studio SP e festas de casamento, aniversário e réveillon. “É uma banda de baile, mais fácil de ser consumida. Del Rey é uma festa, é Roberto Carlos, interação com o público. O Mombojó é mais contemplação”, compara o guitarrista Marcelo. “Del Rey é nossa diversão, que com o tempo acabou servindo de laboratório para o comportamento de palco do Mombojó”, diz o tecladista Chiquinho. “Músico de baile tem que ter improviso. Tocando Roberto a gente aprende muita coisa que depois executa no Mombojó. Uma história leva experiência para a outra”, resume Marcelo.

No sentido inverso, eles levam, também, sua personalidade pós-manguebit e pós-preconceitos contra quaisquer gêneros musicais às canções de Roberto. Em seus arranjos e na voz de China, o repertório clássico do “rei” soa novamente jovem e psicodélico. O grupo prefere os soul-rocks de jovem guarda dos anos 60, como “Quando” (1967) e “Se Você Pensa” (1968), mas não despreza os anos 70, de “Além do Horizonte” (1975) e “Imoral, Ilegal ou Engorda” (1976), nem mesmo o romantismo mais desbragado de “Emoções” (1981) e “Coisa Bonita (Gordinha)” (1993). Um dos paradigmas que a trupe quebra é aquele que separou a dita MPB em guetos e compartimentos estanques. Diante dos rapazes do Del Rey, não faz sentido falar em “brega” e “chique”, em MPB, samba, jovem guarda, rock ou manguebit – como parte substancial e consoladora dos músicos jovens destes anos 2000, eles são isso tudo ao mesmo tempo.

Embora gostem de se definir como “maus músicos” e de se afirmarem limitados ao cover (ou seja, à cópia pura e simples), é inegável que suas identidades enriquecem o Del Rey e modificam o legado empoeirado de Roberto Carlos. São responsáveis, mais que isso, por grande parte do charme da “brincadeira” toda.
Marcelo explica a dinâmica criada entre a banda cover e a original: “O Mombojó ganha uma receita legal com shows, e reinveste. Del Rey é dinheiro que chega, não precisa de investimento nenhum. Como a gente gasta quase todo o dinheiro que ganha com o Mombojó, o Del Rey garante a nossa onda pessoal. É uma parceria, que funciona naturalmente”. Segundo Chiquinho, “é difícil sobreviver como banda no Brasil, eu não consigo pagar minhas contas só com o Mombojó”. Como a maioria dos parceiros, ele participa de outros projetos e produz discos de outros artistas. “É uma rede para vários lados, que ajuda muito para pagar as contas e também contribui para nossa carreira”, conclui.

Nos quatro anos que separaram Homem Espuma de Amigo do Tempo, o Mombojó enfrentou a morte de um dos integrantes, Rafael Virgílio, e a saída de outro, Marcelo Campello. “No começo foi pesado por causa dessas perdas, mas ninguém pensou em parar de tocar. Entramos num dilema: tem que ter show para fazer disco, e tem que ter disco para fazer show, e precisa de dinheiro para fazer disco”, descreve Chiquinho, falando da fase em que, dificuldades à parte, o Del Rey cresceu e apareceu. “O dinheiro para fazer o novo disco nós arrecadamos aos poucos, graças às pessoas que continuaram indo aos shows”, conta Marcelo.
A obra na internet

Como todo mundo sabe, na era dos downloads o disco deixou de ser o produto mais importante para asobrevivência de um artista, e o Mombojó é daqueles que se colocaram em imediata sintonia com os novos tempos. “Quando a pessoa baixa o disco, se torna um divulgador. Nosso público é quem mais precisa ouvir nosso trabalho”, diz Marcelo, defendendo a atitude de deixar a obra do grupo à disposição para downloads gratuitos (e, muitas vezes, piratas).

“A gente preferiu disponibilizar os discos no lugar mais óbvio, que é nosso próprio site (
www.mombojo.com.br). O primeiro disco, lançamos e colocamos na internet na mesma hora, de modo pouco programado. O segundo foi lançado pela Trama e estava na rede dez dias depois do lançamento. Hoje o problema é o contrário: recebemos muitas mensagens de pessoas querendo comprar o Amigo do Tempo, quando a gente ainda não tinha para vender”, diz Marcelo.

Jogar na rede é quase obrigatório, mas é também uma estratégia, como expõe Chiquinho: “Dizem ‘ah, botaram o disco de graça na internet’, não é tão simples assim. Não é de graça. A gente espera que as pessoas baixem, divulguem, venham ao show. Não tem fórmula exata, mas apostamos em jogar junto, numa relação estreita e boa com o público”.

Após uma primeira leva de 2 mil exemplares bancados pela lei de incentivo, o disco de 2004 passou a ser comercializado em bancas de jornal, encartado na revista musical OutraCoisa, de Lobão, e saiu com 40 mil cópias. Seis anos depois, a primeira prensagem de Amigo do Tempo se limita a mil exemplares. “Hoje encaramos o disco como mais uma forma de merchandising”, resume Marcelo.

Em contraste com os tempos de indústria forte e dominadora, apenas os fonogramas do CD da Trama não pertencem à própria banda – mas devem voltar para ela quando se extinguir o período de cinco anos estipulado no contrato. Quanto ao Del Rey, a turma até hoje não levou a sério a possibilidade de gravar um disco próprio, inibida talvez pela notória dificuldade de autorização por parte de Roberto Carlos – apesar de o filho e o empresário do “rei” já terem comparecido a shows da banda cover.

A vida de patrão de si próprio traz vantagens e dores de cabeça, como admite Chiquinho. “Seria massa se tivesse quem cuidasse para a gente da parte chata, de orçamento, de ligar para a fábrica. Em compensação, já sei tudo sobre como fazer um disco, da capa à distribuição”. Dentro desse cenário, a banda-patroa (ou empregada?) Del Rey às vezes desempenha o papel de principal mantenedora do negócio, mas ao mesmo tempo funciona também como “desopiladora” das partes mais chatae complicadas. “É um relax, um playground”, define Marcelo, distante como um terráqueo da Lua dos tempos em que Chico Buarque ficava mal-humorado só em ouvir falar de Odair José.

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