Por Lucio Caramori
Resolvi usar minha experiência como redator publicitário e de campanhas eleitorais pra escrever um pequeno guia aqui: COMO DERROTAR JAIR BOLSONARO NAS ELEIÇÕES 2018. Veja bem: é a forma como EU vou abordar o assunto. Sinta-se à vontade para fazer ou não.
Primeiro e MAIS IMPORTANTE ponto: a luta não é para mudar a opinião dos Bolsonaristas.
É PARA GANHAR OS INDECISOS.
Desista de mudar o voto de quem age por ódio, e não razão. Melhor mostrar a quem não decidiu ainda o quanto a opção Bolsonaro é um retrocesso perigoso.
Por mais absurdo que seja, os comportamentos RACISTA, HOMOFÓBICO, VIOLENTO do candidato não me parecem os melhores argumentos contra ele.
Infelizmente, existe uma tendência mundial em relevar essas atitudes. O que interessa é SEGURANÇA, EMPREGO, SAÚDE.
O argumento que ele não fez NADA pela segurança do Rio de Janeiro em 30 anos de mandato vai ser mais eficaz do que comentar que ele espancaria o próprio filho se fosse gay.
Porque ele sempre se vendeu como pulso firme contra a violência e não como defensor de minorias. Um tema que acho que pode ser uma exceção é o comportamento MISÓGINO dele.
Mas, mesmo assim, me refiro à gravação onde ele diz que mulheres merecem ganhar menos no trabalho. Em uma época de crise dessa, nenhuma mulher escuta isso e acha bonito. Esqueça essa bobagem de "Não fale do bicho papão que ele desaparece".
Os eleitores deles vão continuar berrando, espalhando ódio e convencendo os indecisos no grito. Precisamos ser uma voz CONTRÁRIA, DETERMINADA, LÚCIDA e INFORMATIVA.
O silêncio, nesse caso, será nossa derrota. Não saia do grupo de WhatsApp da Família, do Trabalho, do Prédio, do Clube por causa de radicais Bolsonaristas. Seja o contraponto. Seja a pessoa que combate as fake news com informação, que aponta o radicalismo, a hipocrisia, as promessas sem planos.
E uma sugestão valiosa: Esqueça a IRONIA, o SARCASMO.
As pessoas entendem isso como prepotência. O que está acontecendo é muito sério e os indecisos precisam entender isso.
Deixe para os Bolsonaristas a pecha de "zueiros" e aponte o dedo para eles para falar como essa "zueira" pode acabar com o país.
Esse último ponto tem muito a ver com minha lembrança de um debate entre o Cristovam Buarque e o Joaquim Roriz na minha cidade natal, Brasília. Cristovam ironizou o jeito tosco de Roriz falar. E isso pegou muito mal com o eleitorado mais simples.
Outra sugestão: não aponte um outro candidato. Mostre como a preocupação maior é não permitir a eleição de Bolsonaro.
Se ele cair no 1º turno, o segundo será entre duas visões de Brasil. Aí sim, cabe discussão.
Bolsonaro não tem visão nenhuma.
Bolsonaro é uma ameaça SIM e não acredite em quem diz o contrário. Trump se elegeu por descuido de formadores de opinião que achavam sua candidatura um espetáculo para a mídia. 30% nas intenções de voto não é pouca coisa e brasileiro adora prestar atenção em quem está na frente.
Bolsonaro PRECISA ser derrotado no primeiro turno.
E precisa cair MUITO para ter pouca influência no segundo.
Acho que ele é a maior ameaça que a nossa democracia já enfrentou nesses 30 anos.
E deve ser encarado como tal.
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Genova, 2001
“Em Gênova, vimos como é possível erguer grades e portões, e transformar o tecido urbano vivo em um espaço morto que lembra aquele das cidades pestilentas e dos campos de concentração”.
Foto: Tano D’Amico
A primeira pergunta a se fazer a respeito do que ocorreu [no G8 de 2001] em Gênova* é a seguinte: Por quê os líderes dos Estados mais ricos e poderosos escolheram realizar uma reunião tão impopular não em um local isolado – um castelo ou um destas grandes residências de campo tão comuns na Europa – mas em uma cidade antiga e habitada por muita gente, onde os problemas de ordens e segurança eram tão importantes que eles exigiram a produção de técnicas e forças que necessariamente iriam importunar a tranquilidade dos moradores e ter por consequência todo tipo de riscos? Por quê também ter criado condições em que vidas humanas podiam ser sacrificadas?
Eu vejo uma única resposta possível: tratava-se, mais uma vez, de experimentar as novas formas de dominação mundial e os novos dispositivos que estão transformando radicalmente diante dos nossos olhos o que até agora chamávamos de “política” e “democracia”. Durante a guerra do Golfo e durante a recente guerra da OTAN contra a Sérvia, tratava-se de verificar até que ponto o novo poder mundial era capaz de redefinir as regras do direito internacional, transformando uma guerra externa em uma operação de polícia; hoje em dia, trata-se de verificar até que ponto é possível transformar e suspender as regras do direito interior e os princípios fundamentais da vida dentro de uma sociedade democrática. Não podemos entender o que acabou de ocorrer em Gênova se não observamos que, exatamente como no momento da guerra contra Sérvia, esta cidade da Itália foi o palco de uma guerra sem que os procedimentos previstos pela Constituição e pelo Direito Internacional fossem respeitados, que uma cidade inteira foi colocada em Estado de sítio e que os direitos fundamentais dos moradores – e dos cidadãos italianos e europeus em geral – foram gravemente limitados, sem que o Estado de emergência fosse decretado, fato que poderia ter legitimado, mas em nenhum caso justificado, tais limitações.
O cerne destas “experimentações de poder” é uma questão tão vital que estas não tinham apenas por objeto testar novas regras e dispositivos, mas antes de tudo construir um novo modelo de espaço urbano e social no qual estas regras e dispositivos iriam atuar. Era então preciso transformar o que aparece como o elemento mais difícil de ser controlado – o tecido urbano de uma cidade antiga europeia (e a cidade de Gênova, com suas vielas estreitas e seu centro histórico não foi escolhida por acaso) – em uma zona de controle absoluto, segundo um modelo que não é tanto o modelo jurídico do Estado de sítio porém, mais exatamente, àquele de uma cidade medieval atingida pela peste, dividida em zonas de segurança graduais, dentro das quais algumas, onde o controle é reduzido a uma porção ínfima, são abandonadas à epidemia, e outras cada vez mais estancas, isoladas e protegidas. Mais uma vez, a analogia entre a organização do espaço geopolítico externo e a articulação do espaço social interno funciona maravilhosamente bem. Exatamente como o mundo pôde ser dividido pelas estratégias de poder em diferentes zonas de turbulências graduais – no centro, encontramos a zona de segurança absoluta onde nenhum tipo de guerra é possível; em volta deste centro, existem as zonas-tampão nas quais desordens podem ocorrer até um certo limite; e enfim, depois destas zonas chegamos nas “terras de ninguém” onde tudo, absolutamente tudo pode ocorrer. As antigas cidades europeias assim como as metrópoles americanas são hoje em dia divididas em zonas de cores diversas e segundo escalas de controle que reproduzem em sua estrutura a nova articulação do poder mundial.
Em Gênova, vimos como é possível erguer grades e portões, e transformar o tecido urbano vivo em um espaço morto que lembra àquela das cidades pestilentas e dos campos de concentração. “Esta é a cidade, este é o mundo no qual vocês terão que viver, no qual, mesmo que vocês não tenham percebidos, vocês já vivem”. Este é o recado que o poder, em Gênova, lançou para toda humanidade. Cabe a humanidade ouvir este recado e cabe a nós também pensar nas respostas que podemos lhe dar. Precisamos reagir ao que é, talvez, depois do projeto nazista de uma nova ordem mundial, o projeto mais contrário às formas de vida e mais insano que um poder já imaginou para seus súditos.
Giorgio Agamben
Genova e la peste [Gênova e a peste]
Il Manifesto | 2001
Foto: Tano D’Amico
A primeira pergunta a se fazer a respeito do que ocorreu [no G8 de 2001] em Gênova* é a seguinte: Por quê os líderes dos Estados mais ricos e poderosos escolheram realizar uma reunião tão impopular não em um local isolado – um castelo ou um destas grandes residências de campo tão comuns na Europa – mas em uma cidade antiga e habitada por muita gente, onde os problemas de ordens e segurança eram tão importantes que eles exigiram a produção de técnicas e forças que necessariamente iriam importunar a tranquilidade dos moradores e ter por consequência todo tipo de riscos? Por quê também ter criado condições em que vidas humanas podiam ser sacrificadas?
Eu vejo uma única resposta possível: tratava-se, mais uma vez, de experimentar as novas formas de dominação mundial e os novos dispositivos que estão transformando radicalmente diante dos nossos olhos o que até agora chamávamos de “política” e “democracia”. Durante a guerra do Golfo e durante a recente guerra da OTAN contra a Sérvia, tratava-se de verificar até que ponto o novo poder mundial era capaz de redefinir as regras do direito internacional, transformando uma guerra externa em uma operação de polícia; hoje em dia, trata-se de verificar até que ponto é possível transformar e suspender as regras do direito interior e os princípios fundamentais da vida dentro de uma sociedade democrática. Não podemos entender o que acabou de ocorrer em Gênova se não observamos que, exatamente como no momento da guerra contra Sérvia, esta cidade da Itália foi o palco de uma guerra sem que os procedimentos previstos pela Constituição e pelo Direito Internacional fossem respeitados, que uma cidade inteira foi colocada em Estado de sítio e que os direitos fundamentais dos moradores – e dos cidadãos italianos e europeus em geral – foram gravemente limitados, sem que o Estado de emergência fosse decretado, fato que poderia ter legitimado, mas em nenhum caso justificado, tais limitações.
O cerne destas “experimentações de poder” é uma questão tão vital que estas não tinham apenas por objeto testar novas regras e dispositivos, mas antes de tudo construir um novo modelo de espaço urbano e social no qual estas regras e dispositivos iriam atuar. Era então preciso transformar o que aparece como o elemento mais difícil de ser controlado – o tecido urbano de uma cidade antiga europeia (e a cidade de Gênova, com suas vielas estreitas e seu centro histórico não foi escolhida por acaso) – em uma zona de controle absoluto, segundo um modelo que não é tanto o modelo jurídico do Estado de sítio porém, mais exatamente, àquele de uma cidade medieval atingida pela peste, dividida em zonas de segurança graduais, dentro das quais algumas, onde o controle é reduzido a uma porção ínfima, são abandonadas à epidemia, e outras cada vez mais estancas, isoladas e protegidas. Mais uma vez, a analogia entre a organização do espaço geopolítico externo e a articulação do espaço social interno funciona maravilhosamente bem. Exatamente como o mundo pôde ser dividido pelas estratégias de poder em diferentes zonas de turbulências graduais – no centro, encontramos a zona de segurança absoluta onde nenhum tipo de guerra é possível; em volta deste centro, existem as zonas-tampão nas quais desordens podem ocorrer até um certo limite; e enfim, depois destas zonas chegamos nas “terras de ninguém” onde tudo, absolutamente tudo pode ocorrer. As antigas cidades europeias assim como as metrópoles americanas são hoje em dia divididas em zonas de cores diversas e segundo escalas de controle que reproduzem em sua estrutura a nova articulação do poder mundial.
Em Gênova, vimos como é possível erguer grades e portões, e transformar o tecido urbano vivo em um espaço morto que lembra àquela das cidades pestilentas e dos campos de concentração. “Esta é a cidade, este é o mundo no qual vocês terão que viver, no qual, mesmo que vocês não tenham percebidos, vocês já vivem”. Este é o recado que o poder, em Gênova, lançou para toda humanidade. Cabe a humanidade ouvir este recado e cabe a nós também pensar nas respostas que podemos lhe dar. Precisamos reagir ao que é, talvez, depois do projeto nazista de uma nova ordem mundial, o projeto mais contrário às formas de vida e mais insano que um poder já imaginou para seus súditos.
Giorgio Agamben
Genova e la peste [Gênova e a peste]
Il Manifesto | 2001
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Playlist para el invierno
Tenía años que no publicaba un playlist, este fue generado el fin de semana. Ideal para el invierno. Ideal para los cambios. Ideal para soñar.
1.- Teardrop – Massive Attack
2.- Where Do I Begin – The Chemical Brothers
3.- Rabbit in Your Headlights (feat. Thom Yorke) – UNKLE
4.- Always Remember to Respect and Honour Your Mother Pt. 1 – Dusted
5.- Blue Bell Knoll – Cocteau Twins
6.- Everything in Its Right Place – Radiohead
7.- Destiny – Zero 7
8.- Cherry Blossom Girl – Air
9.- Reach For The Dead – Boards of Canada
10.- Light Through the Veins – Jon Hopkins
11.- Papua New Guinea – The Future Sound of London
12.- Song to the Siren – This Mortal Coil
13.- Glory Box – Portishead
14.- The Host of Seraphim (Remastered) – Dead Can Dance
15.- Music for Airports (1978) “1/1” – Brian Eno
2.- Where Do I Begin – The Chemical Brothers
3.- Rabbit in Your Headlights (feat. Thom Yorke) – UNKLE
4.- Always Remember to Respect and Honour Your Mother Pt. 1 – Dusted
5.- Blue Bell Knoll – Cocteau Twins
6.- Everything in Its Right Place – Radiohead
7.- Destiny – Zero 7
8.- Cherry Blossom Girl – Air
9.- Reach For The Dead – Boards of Canada
10.- Light Through the Veins – Jon Hopkins
11.- Papua New Guinea – The Future Sound of London
12.- Song to the Siren – This Mortal Coil
13.- Glory Box – Portishead
14.- The Host of Seraphim (Remastered) – Dead Can Dance
15.- Music for Airports (1978) “1/1” – Brian Eno
quarta-feira, 18 de julho de 2018
Mandela, Invictus.
Willian Ernest Henley, ao escrever o poema abaixo, jamais sonharia que os seus versos poderiam inspirar um homem com grandeza de Nelson Mandela a suportar, por vinte e sete anos, o cativeiro, condenado por sua luta contra o apartheid.
Foi esse mesmo poema que deu o título ao filme de 2009 com Morgan Freeman e Matt Damon.
INVICTUS
William Ernest Henley
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
***
INVICTO
William Ernest Henley
Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.
Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.
Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.
Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta
William Ernest Henley (23/08/1849 – 11/07/1903)
Nelson Mandela (18/07/1918 – 05/12/2013)
terça-feira, 10 de julho de 2018
Por que São Paulo odeia Getúlio Vargas?
Cruzamento de avenidas em Ribeirão Preto
Ele conferiu cidadania à classe trabalhadora e isto, para uma burguesia elitista, preconceituosa e reacionária, é uma afronta Getúlio Vargas
Texto de Plínio de Arruda Sampaio
Texto de Plínio de Arruda Sampaio
São Paulo tem uma dívida não paga com Getúlio Vargas. Talvez nenhum outro governante tenha feito mais para o desenvolvimento econômico desse Estado do que o grande presidente.
Não fora a defesa do preço do café, certamente, os fazendeiros quebrariam pela impossibilidade de resistir aos efeitos da crise de 1929. Nessa ocasião, Vargas ordenou a queima de café, a fim de restringir a oferta e manter o preço do produto em um nível mínimo.
Seu antecessor, o “paulista” (de Macaé, RJ) Washington Luiz, que se negou a fazê-lo com uma frase que ficou histórica: “quem não pode pagar entrega o que tem”.
Não apenas os fazendeiros são devedores: assumindo a chefia da nação, em 1930, um dos primeiros atos de Vargas foi decretar a legislação trabalhista, o que possibilitou a industrialização do país, da qual o principal beneficiário foi o Estado de São Paulo.
No entanto, apesar disso tudo, não há, na cidade de São Paulo, nem um só monumento, rua, praça ou edifício público importante com o nome do estadista. Políticos com muito menor importância foram aquinhoados com essas homenagens e até políticos estrangeiros tem seus nomes nas placas de lugares importantes.
A ingratidão de São Paulo não é isolada. Os governos da burguesia não dão importância a essa figura maior da política brasileira no ensino na História. Num país de muito poucos estadistas, Vargas figura entre os três maiores deles, junto com por José Bonifácio e o Padre Feijó.
É impressionante, entretanto, o número de brasileiros, entre vinte e quarenta anos, que não têm a menor ideia da personalidade de Vargas e desconhecem totalmente, não apenas o que ele fez, mas a tragédia que cercou sua morte – para ele e para o povo brasileiro.
Essa ingratidão tem um motivo: a burguesia não perdoa Vargas pela edição da legislação trabalhista, porque ela conferiu cidadania à classe trabalhadora e isto, para uma burguesia elitista, preconceituosa e reacionária, é uma afronta.
Basta dizer que, durante a Constituinte, um deputado da base janguista, coagido a votar na emenda de reforma agrária que o Presidente esposava, procurou o relator da mesma com a seguinte frase: “posso votar na sua emenda, mas com uma condição: o trabalhador que trabalha numa fazenda desapropriada não pode receber um lote de terra nessa fazenda”. Diante da perplexidade do Relator, ele emendou: “É uma questão de respeito”.
Cabe à esquerda resgatar a figura de Vargas. Ela tem certa dificuldade em fazer isto porque Vargas, durante o período em que fingiu flertar com o nazismo a fim de coagir os norte americanos a ceder o know how e a conceder empréstimos para a construção da siderurgia brasileira – peça fundamental para a industrialização do país – deportou a mulher do líder comunista, Luiz Carlos Prestes, para a Alemanha, onde ela foi morta em uma câmara de gás.
O resgate dessa figura maior da nossa História é indispensável, a fim de que as novas gerações possam inspirar-se na sua visão e, sobretudo, em seu nacionalismo para defender o país das agressões externas.
Plínio Soares de Arruda Sampaio, 80 anos, é advogado e promotor público aposentado. Foi deputado federal por três vezes, uma delas na Constituinte de 1988, é diretor do “Correio da Cidadania” e preside a Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA
sábado, 9 de junho de 2018
Mais um legado da ditadura.
1360 Ha. de terras que terão de ser descontaminadas - para sempre!
Por
Joelma Couto (publicado
originalmente na Revista Caros Amigos, Ed. 160)
Quem nasceu na região do planalto de Poços de Caldas, Minas Gerais,
após 1977, cresceu ouvindo muitas histórias sobre a mina de urânio
Osamu Utsumi, localizada no município de Caldas. Uns contam que na
infância ouviam dizer que lá se fabricava a bomba atômica, outros
ouviam boatos que ligavam o urânio ao ex-ditador iraquiano Saddam
Hussein, confirmados no livro “Saddam, O Amigo do Brasil”, do
jornalista Leonardo Attuch. Segundo narra Attuch, “Entre os anos de
1976 e 1990, Brasil e Iraque foram grandes parceiros comerciais. Uma
das mais sigilosas operações entre os governos do general João
Batista Figueiredo e de Saddam Hussein aconteceu no dia 14 de janeiro
de 1981. Foi quando dois aviões iraquianos decolaram das pistas do
Centro Tecnológico Aeroespacial, em São José dos Campos, e voaram
em direção a Bagdá, carregados com o urânio que vinha das minas
de Poços de Caldas”.
Em 1982, deu-se início à operação comercial para produção de
concentrado de urânio, que durou até 1995. Não se sabe exatamente
quantas toneladas de urânio foram extraídas da mina, que fica em um
local conhecido como Campo do Cercado. Sabe-se que a produção foi
muito pequena, algo em torno de 4.500 toneladas, segundo o site
oficial da INB, e 1.200 toneladas segundo folder sobre a produção
da mina.
Após a paralisação total das atividades de lavra, iniciou-se outra
polêmica na região. Em São Paulo, a Usina de Santo Amaro (Usam),
também conhecida por Nuclemon, entrou em processo de
descomissionamento, processo de desativação de uma instalação
nuclear ao final de sua vida útil, observando-se todos os cuidados
para proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores, das pessoas
em geral e também do meio ambiente.
No entanto, para se descomissionar é necessário desmontar todas as
construções envolvidas, retirar até mesmo a terra que se tornou
radioativa e depositá-los em um local seguro. Como no Brasil não
existem depósitos definitivos, assim como no resto do mundo, a
solução foi enviar para a área da antiga mina de urânio de
Caldas. A população da região se revoltou. Milhares de toneladas
dos materiais radioativos torta ll e mesotório produzidos pela Usam
já estavam estocados no local, e os moradores da região ainda
teriam que mais uma vez aceitar estes vizinhos indesejáveis?
Maria Augusta Barbosa, moradora de Caldas, conta: “Ficamos
revoltados, não fomos nós que produzimos este lixo, por que devemos
aceitá-lo aqui?”. Depois de muito barulho da população, apoiada
pelo Greenpeace, e da intervenção de autoridades, como o ex-juiz da
comarca da Caldas, Ronaldo Tovani, e do ex-secretário de Meio
Ambiente do Estado de Minas Gerais, Tilden Santiago, o então
governador Itamar Franco proibiu a entrada no Estado de Minas de lixo
radioativo oriundo de outros Estados. O pouco que restou em São
Paulo ficou no depósito da Usina de Interlagos, ao lado do terreno
que abrigará o futuro templo do Padre Marcelo Rossi.
VEREADORES PREOCUPADOS
No último dia 6 de abril, o gerente de descomissionamento da
Indústrias Nucleares do Brasil – Caldas, Luiz Augusto de Carvalho
Bresser Dores, compareceu à sessão da Câmara Municipal de Poços
de Caldas, a convite do vereador Tiago Cavelagna (DEM). Bresser
afirmou que mais de 12 mil toneladas de torta ll estão estocadas na
unidade de Caldas, mas não trazem nenhum tipo de risco para a
população. Os números são altos: 7.588.726 toneladas de rejeitos
radioativos, 2.302 toneladas de mesotório em silos aterrados e 1500
toneladas estocadas na barragem de rejeitos, além de 10.159
toneladas de torta II em bombonas e o restante em silos de concreto
aterrados.
Outra preocupação é o chamado bota-fora: milhões de toneladas do
que sobrou da lavra de urânio e que contêm minerais ricos em
enxofre (sulfetos). Estes minerais sofrem um processo de oxidação
natural e em contato com a água da chuva produzem ácido sulfúrico.
O ácido dilui na água e solubiliza os metais pesados, como por
exemplo o urânio. Mesmo que em quantidades pequenas, quando a água
é drenada estes metais também são transportados para a barragem de
drenagem ácida.
Esta mistura de metais pesados e ácidos tem caráter nocivo e pode
alcançar os mananciais ou mesmo o lençol freático da região,
comprometendo o meio ambiente. Quando chove forte, existe a
possibilidade da barragem transbordar e esta água ácida cair no
Ribeirão Soberbo, que faz parte da Bacia Hidrográflca do Rio Verde,
que flui para o município de Caldas, com prejuízo para a fauna e
flora da região. Também está dentro dos limites da mina a Bacia
Hidrográflca das Antas, que flui para Poços de Caldas.
A vereadora e médica Regina Cioffi (PPS) entregou ao Ministério
Público de Poços de Caldas, no dia 18 de junho, um dossiê com
denúncias contra a INB-Caldas. Ela afIrmou que “a INB é uma
estatal, está sob jurisdição federal, por isso pedi ao MP de Poços
de Caldas que encaminhe as denúncias ao Ministério Público
Federal”.
Já a vereadora Maria Cecília Opípari (PSB) quer que a torta II e o
mesotório depositados em Caldas voltem para São Paulo. “Tenho
medo que a INB Caldas se torne um depósito de lixo radioativo
proveniente de todo o país”, afIrma a vereadora.
Maria Cecília levará as denúncias contra a INB para Brasília,
onde participará da Conferência Nacional das Cidades, como delegada
do Estado de Minas Gerais e da cidade de Poços de Caldas. Segundo
Maria Cecília, existem indícios de que no dia 28 de maio houve um
rompimento em uma barragem que fIca dentro do complexo da INB-Caldas
e cujas águas são despejadas no Ribeirão das Antas. “Não
quero alarmar a população, mas temos que tentar buscar
esclarecimentos”, afirma a vereadora.
Estudos feitos em vários países comprovam o aumento da incidência
de câncer em crianças que moram perto de instalações nucleares.
Dados estatísticos de órgãos públicos da saúde atestam altos
índices de câncer nos municípios de Santa Rita de Caldas, Ibitiura
de Minas, Caldas, Andradas e Poços de Caldas, todos na região onde
se localizam os depósitos de lixo radioativo. Segundo Regina Cioffi
nunca se produziu torta II e mesotório na unidade da INB-Caldas.
Para ela, “quem produziu o lixo, que arque com as consequências”.
A Câmara Municipal de Poços de Caldas formou uma comissão composta
por cinco vereadores, que deverão visitar as instalações da INB
Caldas, pois existem indícios de que o material radioativo não está
acondicionado com segurança. A reportagem teve acesso a
fotos que seriam dos depósitos da INB-Caldas, que mostram o
comprometimento na armazenagem de grande parte do material, com
latões enferrujados e amassados, pallets de sustentação
comprometidos.
REJEITO OU ESTOQUE?
Uma das questões que se levanta sobre o material depositado no
complexo é se mesotório e a torta II são rejeitos ou estoque
estratégico de urânio.
Em 2002 foi assinado um termo de compromisso com o IBAMA. Este termo
se referia ao licenciamento ambiental das instalações do complexo
industrial. Participaram das negociações o Município de Caldas, a
CNEN- Comissão Nacional de Energia Nuclear – e a FEAM- Fundação
Estadual do Meio Ambiente, com o objetivo de viabilizar os testes de
processamento da monazita, e estabelecer as diretrizes para o
licenciamento ambiental e o processamento contínuo destas.
O termo de compromisso criou para a INB – Caldas, dentre outras
obrigações, a de definir medidas efetivas para recuperar as áreas
degradadas existentes na Unidade de Tratamento de Minérios – UTM
de Caldas, decorrentes das atividades anteriores às atualmente
pretendidas pela empresa (produção de concentrados de terras
raras). Mas retirar o urânio da torta II mostrou-se
economicamente inviável. Para que seja dado um destino
final a este material, é preciso definir se é rejeito e – assim
sendo, ele deve ser levado para um depósito próprio e defmitivo
para lixo radioativo – ou, se é material passível de
reaproveitamento no futuro, deverá ser acondicionado da forma mais
segura possível.
Outra questão normalmente levantada pela população da região diz
respeito às prioridades do governo: é mais importante para
o Brasil definir o que vai fazer com o lixo radioativo e como, ou
investir bilhões em novas usinas nucleares? Não sabemos
sequer o que fazer com a torta II existente no país há pelo menos
50 anos? E o mais grave, qual será o destino do combustível
dos reatores de Angra?
Não menos importante é saber que destino a INB dará à unidade
de Caldas. Segundo relatório anual da empresa em 2006, “as
atividades da Unidade de Tratamento de Minério (UTM) da INB, situada
em Caldas (MG), foram interrompidas, ficando operacionais somente as
atividades de controle e monitoração do meio ambiente, tratamento
de águas marginais, efluentes, controle da barragem de rejeitos e
aquelas relacionadas com manutenção. A unidade de Caldas será
submetida ao processo de descomissionamento que inclui o Plano de
Recuperação das Áreas Degradadas – PRAD. O processo licitatório
prevê a apresentação de propostas para fevereiro de 2007″.
Já o relatório anual 2008 diz que “a INB tomou a decisão de
transformar esta unidade num centro de excelência laboratorial para
análise de conteúdos radioativos de materiais de toda empresa,
os laboratórios já estão sendo modernizados e o quadro de material
especializado está sendo ampliado”. Mais uma vez, a
empresa não deixa claro quanto tempo levará para finalizar o
descomissionamento da mina do Cercado. A unidade será um
depósito definitivo?
DEPÓSITO DEFINITIVO
No
Brasil, apenas em Abadia
de Goiás existe
um depósito definitivo para rejeitos radioativos. O depósito foi
criado para acondicionar o lixo radioativo produzido pelas cerca de
19 gramas de césio 137. O acidente de Goiânia foi o maior em área
urbana do mundo e é estudado por cientistas norte-americanos, como o
cenário de um possível atentado nuclear terrorista. Apenas 19
gramas foram suficientes para contaminar diretamente 6.500 pessoas.
Odesson
Alves Perreira, presidente da Associação das Vítimas
do Césio 137 e
do Conselho Estadual de Saúde, participou da OfIcina Anti-nuclear do
Nordeste, realizada em abril deste ano, onde relatou sua história e
de outros atingidos pelo césio 137. Odesson falou do preconceito de
que é vitima até os dias de hoje. Além de perder a sobrinha, a
casa, tudo que lembrava sua história, fotos, documentos, tudo que
pertencia a ele foi para o depósito.
Odesson conta
que perdeu familiares, amigos, emprego. Quando foi autorizado a
voltar ao trabalho, foi vítima do medo que todos tinham dele.
Ninguém se aproximava, nem mesmo o médico trabalhista, que o
aconselhou a aposentadoria. “Quando fui comprar uma nova casa, tive
uma surpresa que não esperava: a vizinha fez um abaixo assinado
exigindo que eu e minha família não pudéssemos morar naquela rua,
orientada por seu médico particular, afirrmava que a radiação
emitida pela família poderia agravar seu estado de saúde.
Reconstruir a vida, recomeçar não é fácil”, afIrma Odesson.
É consenso entre especialistas da área e ambientalistas que se
crie no País um órgão regulador autônomo e independente para a
fiscalização das áreas de radioproteção e segurança
nuclear. Rogério dos Santos Gomes, físico e doutor em
Engenharia Nuclear, explica que “na área de rejeitos o Brasil
possui uma legislação caótica sobre a seleção de locais e
construção dos depósitos que dispõe que cabe à Comissão
Nacional de Energia Nuclear (CNEN),projetar, licenciar, construir,
operar e fiscalizar os depósitos, enquanto a Convenção
Internacional sobre a segurança do combustível usado e segurança
de rejeitos, aprovada pela Agência Internacional de Energia Atômica,
assinada pelo Brasil, aprovada pela Câmara e pelo Senado e
sancionada pelo Presidente da República, dispõe que cada país
deverá assegurar a efetiva separação entre os órgãos que
licenciam e fiscalizam e os que constroem e operam locais de
rejeitos”.
Que
garantia podemos ter se o mesmo órgão que executa é o que
fiscaliza? Além
do Brasil, apenas Paquistão e Irã mantêm esta estrutura. Ainda
segundo Rogério Gomes “em julho de 2008 foi criado pelo presidente
da República o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear
Brasileiro (CDPNB), sob coordenação da ministra-chefe da Casa Civil
e compreendendo 11 outros ministros de Estado, tendo sido consenso
entre todos a necessária criação de uma agência reguladora
nuclear, promovida através da separação da CNEN. Hoje,
passados quase dois anos, nada de prático foi alcançado, com a
coordenação do CDPNB tendo passado para a Secretaria de Assuntos
Estratégicos da Presidência da República, que no seu documento
sobre os rumos do Brasil até 2022, não contempla a necessária
criação de um órgão regulador independente. Ao
que parece, o discurso de aumento do programa nuclear brasileiro não
estará associado à criação de estruturas para garantir que toda a
atividade nuclear se desenvolva evitando riscos à população e ao
meio ambiente”.
CUSTOS MUITO ALTOS
Vendo
a energia nuclear pela lógica do aquecimento global, ela parece
perfeita, mas, quando colocamos na ponta do lápis toda a
contabilidade e os impactos ambientais causados por ela desde a
mineração até a destinação final de seus rejeitos, será
que realmente estamos prontos para investir no nuclear?
Nos Estados Unidos, a grande polêmica da construção do depósito
definitivo no Estado de Nevada ainda não terminou. O governo dos
Estados Unidos gastou, só com estudos prévios para definir qual
seria o melhor local para o depósito, 7 bilhões de dólares. Os
custos da construção estão estimados em 58 bilhões, com vida útil
de pelo menos 10 mil anos. Críticos ao projeto temem que o
material possa escoar pelos campos ao redor da montanha e contaminar
o meio ambiente, além do risco de se transportar o material
altamente radioativo por longas distâncias. Caso o depósito
da Montanha de Yucca não se concretize, os norte-americanos voltam à
estaca zero: onde depositar seu lixo radioativo?
Vazamentos estão por toda parte, até mesmo em um depósito no
deserto do Estado de Washington. Colocar num ônibus espacial e
enviar para outro planeta? Quais seriam as consequências se
acontecesse um acidente com um ônibus espacial carregado de lixo
radioativo? A NASA já teve dois sérios acidentes envolvendo ônibus
espaciais.
O tsunami que atingiu a Indonésia em 2004 removeu do fundo do mar
da Somália, contêineres de lixo radioativo jogados ilegalmente em
sua costa. A população da Somália sofreu com hemorragias
em vários órgãos, sangramentos na boca, queimaduras de pele, além
da contaminação das águas e do solo. Ainda existe a possibilidade
que estas pessoas contaminadas possam desenvolver câncer e anomalias
genéticas nas próximas décadas.
De acordo com a médica Maria Vera de Oliveira, do Centro de
Referência do Trabalhador-Santo Amaro, em São Paulo, “não
existem níveis seguros de contato com a radiação”.Por
estarem sempre ligados a militares, estes estudos são dificultados.
Por mais que se diga que a energia nuclear deva ser usada para fins
pacíficos, ela sempre estará muito próxima daqueles que fazem as
guerras.
No
caso de Nagasaki
e Hiroshima até
hoje não se sabe quais foram as reais consequências para as futuras
gerações Acredita-se que os estudos foram dificultados e até mesmo
impedidos para que não se soubesse os reais danos causados pelos
Estados Unidos ao Japão, mesmo estando a guerra praticamente acabada
e o país destruído.
QUESTÕES ÉTICAS
Ex-trabalhadores
da Nuclemon afIrmam
que a torta II e o mesotório produzidos na Usam eram estocados no
terreno de Interlagos e depois carretas levavam os produtos até
Poços de Caldas, onde eram jogados na ribanceira. Um dos
entrevistados mostra a cicatriz na barriga, perdeu um rim e tem
muitos problemas de saúde. Mas enche os olhos de lágrimas quando
conta que ia a Poços de Caldas para ganhar um “extra”, sem saber
o alto preço que pagaria. Diz que o pior foi quando ficou sabendo
que tipo de trabalho fazia, e que tipo de material jogou na
ribanceira. “É triste pensar que posso ter prejudicado muita
gente”. Este
trabalhador é mais uma vítima do descaso com que o Projeto Nuclear
Brasileiro é conduzido.
Heitor
Scalambrini,
doutor em Energética da Université d’Aix-Marseille III e
professor da Universidade Federal de Pernambuco, questiona se é
ético deixar para as futuras gerações resolverem os problemas do
lixo radioativo que nós produzimos. Ainda segundo Scalambrini, “o
PNB nasceu na ditadura e até hoje depende de demandas de alguns
setores das forças armadas, fascinados pelo poder que a energia
nuclear Ihes traz. Outros grupos de interesse que fazem “Iobby”
são os setores industriais “preocupados” com o risco de um
apagão, grupos de cientistas, pelo prestígio e oportunidades de
novas pesquisas e pelo comando do processo, os fornecedores de
equipamentos e as empreiteiras, por motivos óbvios”.
O professor Scalambrini acredita que uma matriz energética
diversificada seria a solução para o País, inclusive para
aproveitar todo o potencial de fontes alternativas que existem por
aqui. Para ele, a energia nuclear talvez seja o futuro, mas ainda há
muito o que estudar.
Não
se pode subestimar os riscos com segurança. Rogério
Gomes acredita que o Programa Nuclear Brasileiro não está maduro,
que corremos o risco de um acidente como o de Alcântara, próximo a
usinas nucleares. Um
estudo feito pela pesquisadora Geórgia Reis Prado concluiu que
a população
de Caetité,
na Bahia, está 100 vezes mais exposta à contaminação por urânio
que a média mundial.
A lavra de urânio está associada a metais pesados. Segundo o
pesquisador Lamego, um estudo realizado na área de mineração de
urânio de Poços de Caldas indica que a “emissão de manganês era
muito mais signifIcativa, do ponto de vista da saúde humana, do que
aquelas relativas aos elementos radioativos, que sofriam (e ainda
sofrem) um rígido controle pela Comissão Nacional de Energia
Nuclear”.
O debate aberto e democrático deveria ser pré-requisito para se
decidir qual o tipo de energia queremos, e que sociedade queremos
construir.
Joelma
Couto é jornalista.
sábado, 2 de junho de 2018
O Mijo do Diabo
O mijo do diabo
A maior discussão do momento brasileiro é sobre o que fazer com o sonhado dinheiro do petróleo descoberto na costa brasileira. São bilhões de barris de petróleo para trilhões de reais do chamado pré-sal. Petróleo em abundância traz muitas conseqüências.
Dos 20 maiores exportadores de petróleo do mundo, 16 são ditaduras ou "reinos". Dois países, México e Venezuela, têm uma democracia meio torta. E a pobreza é característica desses países. Parece que somente a Noruega trilha a democracia.
Petróleo é considerado o mijo ou o excremento do diabo, provoca problemas na economia. O mais comum é a desindustrialização ou a chamada doença holandesa.
É que entra muito dinheiro no país exportador de petróleo. A moeda nacional se fortalece. É mais fácil comprar bens no exterior do que produzi-los. Além disso, os bens produzidos no país ficam caros e vende-se menos externamente. Mata a produção interna.
A Noruega deixa o dinheiro no exterior em um fundo para financiar a aposentadoria dos noruegueses. É a riqueza do petróleo em beneficio da maior parte das pessoas do país.
No Brasil tem tanta conversa sobre o que fazer com o dinheiro que encabula. Enumero algumas. O ministro da Previdência quer que parte dos recursos seja aplicada em aposentadoria rural. O ministro da Defesa fala em reaparelhar as Forças Armadas. Outros entendem que se pode abater a dívida interna ou a externa.
O presidente Lula já falou e investir em educação, nos estaleiros e em infra-estrutura. Disse ainda que não seria bom o país exportar petróleo bruto, mas sim diesel e gasolina. Tem gente com receio de o governo Lula começar a gastar o dinheiro do pré-sal antes mesmo de tirar o petróleo do fundo do mar. Venderia bônus futuro no mercado.
Essa nova situação que o Brasil vai enfrentar não é fácil de equacionar. Um professor de Harvard, em entrevista a uma revista brasileira, disse que não se pode trazer o dinheiro para dentro do país. Até em educação não se deve investir. O dinheiro seria usado somente em momentos de crises. Acha que o Brasil poderia é criar tecnologia própria para explorar petróleo em águas profundas e ganhar dinheiro com isso.
Não se sabe ainda o que o governo pretende fazer com o tal dinheiro que deve entrar no futuro. Não se sabe até qual seria o modelo para explorar esse petróleo. Uns acham que devia ficar com a Petrobras. Outros entendem que se deve criar uma nova estatal, Petrosal, só para gerir a exploração do petróleo novo descoberto.
A Noruega criou uma dessas com 60 funcionários somente. Se for criada uma estatal paralela os acionistas da Petrobras não vão gostar. Ninguém quer perder dinheiro. Pode ter ações na Justiça.
Fala-se ainda que o modelo de exploração poderia ser híbrido. Quem já tem concessão fica com a regra atual. Novos poços, já com novas regras, se teriam novas licitações mundiais. Seria através da Petrobras ou da tal de Petrosal? Ninguém sabe ainda.
E aí, deixamos todo o dinheiro no exterior e usa-o somente em momentos especiais? Ou se gasta no que o país precisa? Inundar o país de dinheiro trás conseqüências. Como compatibilizar isso? Tem um meio termo em que se pode gastar um pouco internamente sem provocar a desindustrialização? Ou segue-se o modelo da Noruega em que o dinheiro fica no exterior e é para aposentadoria?
É um debate que o país vai ter que enfrentar de forma transparente. Esta geração tem o dever de fazer a coisa correta para que outras gerações não sofram doídas conseqüências.
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Maio de 1968 e o sentimento do inacabado.
Quadrinho de Aline Zouvi (FSP 06 de maio de 2018)
Texto de Concessa Vaz
foto: Concessa Vaz
“Métro, boulot, dodo” (metrô, trabalho e cama), resumia o dito popular, extraído de um verso de Pierre Béarn, de 1956, e repetido monotonamente pelos integrantes do movimento estudantil, que, tendo se iniciado na Universidade de Nanterre, naquele início do ano de 1968, se alastrou rapidamente por toda Paris, alcançando a Sorbonne, todo o Quartier Latin, a Cidade Universitária Internacional e, em poucas semanas, as principais províncias francesas.
“Que tipo de vida é essa?” bradava em eco um jovem operário mais adiante, acenando aos estudantes e trazendo para seu cortejo milhares de outros operários e profissionais de todas as áreas, compartilhando com aqueles suas angústias e aflições.
Era a própria ordem social que estava em jogo e com ela a alienação a que todos estavam submetidos — a falta de significado de uma sociedade capitalista burocratizada, onde a maioria dos cidadãos levava uma existência trivial, medíocre, repetitiva, repressiva e reprimida. Toda ordem social estava sendo questionada, o estilo de vida, o quotidiano estava sob suspeita. Recusavam-se, todos, e assim clamavam, a serem “treinados como cães policiais”, a se verem convertidos de homens em objetos.
Uma árdua luta foi travada contra os patrões e o Estado. “Ni Dieu, Ni Mâitre!” (“Nem Deus, Nem Senhor!”), exclamavam os anarquistas, relembrando o lema de Auguste Blanqui, de finais do século XIX. “À Bas l’État Policier!” (“Abaixo o Estado Policial!”), gritavam outros rebeldes, selvagemente reprimidos pela força policial — a violência organizada e concentrada nas mãos do Estado, detentor do monopólio das armas.
O princípio da hierarquia, e da autoridade, prevalecente em todos as instâncias da sociedade era assim questionado – na fábrica, na família, na Universidade –, e a bandeira vermelha tremulava em todos os cantos, seguida da bandeira negra dos anarquistas, não poupando sequer o Teatro da Ópera e o fino cabaré Folies Bergères. As tricolores bandeiras francesas não estavam à vista, indicando claramente a natureza revolucionária do movimento em curso.
Os acontecimentos de maio de 1968 na França passam, para sua compreensão, pelo filtro do trabalho – a base material e econômica das ideias desenvolvidas e propagadas por seus protagonistas. Tamanho movimento, que irrompeu de forma inédita no centro de uma Europa capitalista altamente industrializada, no apogeu de um crescimento econômico por quase trinta anos ininterruptos (os “Trente Glorieuses”, segundo o economista Jean Fourastié), não pode ser reduzido a uma mera agitação da juventude, a uma contestação moral e cultural de estudantes privilegiados e “gatés” (mimados), embora tivessem sido eles, os estudantes universitários, o relâmpago que anunciava a tormenta por vir. A efervescência estudantil era antes a manifestação mais evidente ou o barômetro sensível de um descontentamento geral e de uma crise maior que já se anunciava a partir de dentro da sociedade francesa, cujas origens mais profundas pertencem ao processo geral de racionalização da produção instaurado na grande indústria capitalista em finais do século XVIII.

O período pós-1945 caracteriza-se por um forte crescimento econômico, impulsionado pelas necessidades de reconstrução de uma Europa, e de uma França em particular, mutilada por duas grandes guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) e por uma grande crise econômica (1929), que resultou em falências, desemprego em massa e uma severa depressão de alcance mundial. Sob a dominação e financiamento dos Estados Unidos, e os estados nacionais lhes servindo de muleta, a reconstrução nacional opera-se e os capitalistas rebatizam seus impérios industriais. Abrem-se então os chamados “anos dourados”, anos de um crescimento sem precedentes e cujo combustível eram os ganhos de produtividade (produto por trabalhador) assentados no modelo taylorista-fordista de produção.
Em finais do século XIX, o engenheiro mecânico Frederic Taylor escreveu os “Princípios de Administração Científica“, um monumento a serviço da organização das empresas e da racionalização da produção e, particularmente, da administração industrial e os meios de torná-la mais eficiente. Taylor revelou os secretos requisitos educacionais/intelectuais que deviam ser exigidos dos trabalhadores para que as empresas fossem bem sucedidas competitivamente. Suas contribuições fundamentais podem ser resumidas em dois pontos, a saber: 1) as práticas de trabalho devem ser rigorosamente padronizadas a partir da análise do “melhor método” de produzir, cobrindo tanto as operações manuais quanto o tempo requerido para executá-las. Trata-se de um estudo dito científico dos “tempos e movimentos”; 2) o estabelecimento de uma rígida separação entre concepção e execução, a partir de uma escala hierárquica de ocupações rigorosamente planejada, incluindo diversos níveis de controle e supervisão do trabalho. Com Taylor, portanto, não apenas o relógio entrava na fábrica, mas o cronômetro, caracterizando uma militarização do trabalho, batizada eufemisticamente de “organização científica do trabalho”. Os tempos e movimentos, depois de analisados, eram impostos aos trabalhadores para serem cumpridos -e uma forte estrutura hierárquica de controle e supervisão se lhes sobrevinha para garantir a produção planejada.
O salto de qualidade foi dado por Henry Ford na indústria automobilística, redesenhada por ele a partir de Taylor. Ford incorporou os princípios tayloristas de divisão do trabalho já estabelecidos e elevou ao máximo a produtividade com a intensificação acelerada do trabalho, induzida e viabilizada pela tecnologia da linha de montagem — ou seja, pela incorporação dos procedimentos na própria máquina. Assim, o aumento de produtividade se produzia pelo trabalho coletivo, altamente potencializado. Através de uma linha de montagem progressiva, os produtos padronizados e entregues à cadência de um mecanismo artificial e exterior aos trabalhadores eram elaborados com um grau de precisão tal que dispensavam “ajustes”. O ritmo rápido e estável da linha de montagem garantia a vantagem competitiva do capitalista (e, portanto, a obtenção em um patamar mais elevado de mais-valia relativa).
Com essa tecnologia, que se estendeu rapidamente para outros setores muito além da indústria automobilística, a produção se fazia em massa e em larga escala, de modo a reduzir os custos unitários, dado o elevado investimento em capital fixo (máquinas, equipamentos, plantas industriais, etc.) exigido. O fordismo, como veio a ser denominado, foi, assim, um dos motores que permitiu o pleno emprego e um aumento do nível de vida dos trabalhadores, via redução dos preços das mercadorias necessárias à sua sobrevivência e reprodução. Foi este o sistema de produção que veio a reger todo o crescimento econômico francês no pós-guerra, com sua linha de montagem e os princípios de organização do trabalho taylorista. Com uma estrutura centralizada de produção, calcada no controle do tempo e dos movimentos do trabalhador na linha de montagem, as fábricas absorviam uma massa gigantesca de operários especializados (OS), receptores de salário mínimo (SMIG), sujeitos a uma jornada semanal de trabalho de 45 horas, exercendo tarefas precisas, repetitivas, montando peças uniformizadas que desfilavam diante deles, repetindo ao infinito os mesmos gestos e se submetendo à cadência infernal da linha de montagem, embrutecidos e alienados. Sob tais condições de trabalho e vida, não iam a lugar algum com os salários que recebiam em troca, reproduzindo-se diariamente, tal como um pêndulo, diante de uma rotina cada vez menos suportável para cada cidadão-trabalhador parisiense: “métro, boulot, dodo”,
A produção em massa, ademais, deu origem a um consoante consumo de massa e transformou a sociedade, por sua vez, em um mundo de robôs, com modos de vida codificados e com rotinas rigidamente demarcadas – foi a uniformização da vida quotidiana (Henry Lefèbvre).
O mesmo princípio hierárquico da produção fordista refletia-se em universidades igualmente centralizadas, cujos reitores, tais como marionetes, deviam atender, prioritariamente, às necessidades tecnológicas do capitalismo francês, às exigências do sistema produtivo então implantado e disseminado. Não por acaso, os enfurecidos estudantes de Nanterre bradavam, já antes de Maio de 68 que não queriam ser “des chiens de garde de la bourgeoisie” (“cães de guarda da burguesia”).
O governo francês, por sua vez, estava nas mãos de um general – De Gaulle, que havia posto um fim à guerra contra a emancipação política da Argélia e comandava o país com similar austeridade, sem consultas e governando por decreto, além de exercer um enorme controle político através das mídias de então: a televisão e o rádio. Os limites de seu governo se expressavam claramente no “slogan” já trivial nas manifestações de maio: “Adieu, De Gaulle, dix ans, ça suffit” (“Adeus, De Gaulle, dez anos, basta!”).
Durante os 25 anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o sistema capitalista francês escondera-se atrás da embriaguez do progresso econômico. Mas a lógica do trabalho, decorrente do regime de produção taylorista-fordista então dominante, controlava toda a vida social e humana.
Em meados dos anos 1960, esse sistema de produção começou a perder eficácia. A produtividade desacelerou, os capitalistas tentaram compensar a queda reduzindo os salários reais, degradando ainda mais as condições de trabalho, promovendo o desemprego parcial e, funestamente, acelerando as já infernais cadências da linha de montagem. Os operários, em particular a massa de especializados, revoltaram-se contra o peso da crise que começo a recair sobre seus ombros, e o desequilíbrio instalou-se. Os operários decidiram juntar-se aos estudantes grevistas e recusaram-se ao jogo de “perdre sa vie à la gagner” (“perder a vida para ganhá-la”). Tal recusa apareceu também sob a forma de absenteísmo no trabalho — o chamado “turn-over”, a recusa do trabalho, ou sob a forma de sabotagem. Mas foram provavelmente as condições salariais dos trabalhadores especializados, a maioria absoluta dos trabalhadores fordistas, que levaram os trabalhadores à revolta e a se juntarem aos estudantes. Esta adesão ficou definitivamente gravada nas bandeirolas que tremulavam por toda parte com os dizeres: “étudiants, professeurs, ouvriers” (“estudantes, professores, operários”. Foi esta junção histórica entre o trabalho intelectual e o trabalho manual que fez do Maio de 1968 na França um evento particular e diferenciado em relação ao que ocorria no resto do mundo.
Somente no final da década seguinte a persistência dos sintomas depressivos exigiu reações e mudanças de modo a revigorar o crescimento econômico capitalista. A partir dos anos 1980, novas estratégias empresariais de competitividade e de produtividade começaram a ser desenhadas, alterando a organização do trabalho e as formas de gestão da produção. Um novo padrão instaurou-se, a assim chamada “produção flexível”. Mas como no taylorismo-fordismo, este sistema de produção nasceu igualmente ao processo geral de racionalização da produção instaurado pela grande indústria capitalista de finais do século XVIII. O objetivo continuava sendo o da acumulação de capital por meio do aumento da produtividade e da competitividade. Logo, numa perspectiva histórica e do ponto de vista da organização do trabalho, a recém-chegada “produção flexível”, longe de constituir uma novidade, foi antes de tudo uma norma, pois que o processo produtivo, com os seus trabalhadores aí inseridos, foi permanentemente reorganizado e/ou reestruturado ao longo do tempo em função da necessidade imperativa de crescimento do capital, que só se viabiliza através do aumento constante da produtividade do trabalho e, portanto, da mais-valia.
“A força com a qual a contestação estudantil e operária se afirmou na França, em Maio de 1968, confirma a virulência dos antagonismos no interior desta sociedade pretensamente estável e a incapacidade da burguesia de superá-los, ou seja, de conseguir a domesticação durável das classes exploradas” (cf. Daniel Bensaid). Os trabalhadores não demoraram a perceber, face à recessão que se abriu e se estendeu ao longo dos anos que se seguiram, que o capitalismo não se encontra ao abrigo de crises maiores, tendo como resultado um conjunto de reestruturações que prejudicam, inevitavelmente, suas condições de existência.
Como testemunha ocular dos acontecimentos de Maio de 1968 na França, quando eu era apenas uma entre milhares de outras estudantes, francesas e estrangeiras que aí faziam seus estudos, e no auge de meus 20 anos, termino este texto compartilhando o mesmo sentimento de Christian Laval, tão bem expresso em seu depoimento, quando dos 40 anos de Maio de 1968:
“(…) Este movimento, sem chefe, sem direção e sem programa é o nome daquilo que um dia fez medo e que precisou ser controlado, remetendo-o ao folclórico, ao anedótico ou ao banal…Este movimento, e sua força, permaneceu aberto às interpretações, às recuperações…68 é a afirmação gritante de uma recusa que continua a atemorizar… [é a afirmação] de que há outra coisa possível. Maio de 68 é o nome deste desejo…Nosso tempo passou e é preciso dar passagem. Nós fomos o elo provisório de um tempo igualmente provisório, (…) nós somos muitos a ter o sentimento do inacabado…”
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